terça-feira, 24 de novembro de 2009

O mito na sociedade Contemporânea

por Helcio Antunes Garcia

Alguns pensadores do século passado, os positivistas – Augusto Comte (1798-1857) é o principal representante – afirmavam que o progresso tecnocientífico faria o homem abandonar totalmente suas crenças, passando a aceitar somente as explicações resultantes das pesquisas científicas. Passaram-se mais de cem anos, a ciência e a tecnologia progrediram, talvez mais do que Comte imaginasse, e as crenças continuam presentes. Aliás, constata-se que, nos países mais desenvolvidos, o sentimento de religiosidade vem sendo revitalizado. Isto prova duas coisas: primeiro, a ciência não é capaz de dar todas as respostas de que necessita o homem; segundo, por mais que a ciência e a tecnologia progridam, elas não são capazes de satisfazer a sede humana do infinito.
Por isso, hoje podemos encontrar fortes indícios das crenças míticas. Os mitos não ficaram perdidos num passado remoto; muitos de seus elementos estão ainda claramente presentes na atualidade. Superstições, crendices, invocações, promessas, benzeções, rezas, previsões, rituais de passagem, invocações de espíritos fazem parte não só das assim chamadas sociedades menos desenvolvidas, mas podem ser encontrados nos mais refinados ambientes das sociedades avançadas. O mito está fortemente vivo, apesar da negatividade de alguns. A Religião, a Filosofia e a Ciência não conseguiram eliminá-lo. Somente diminuíram sua importância.

O mito moderno

Além da preservação de alguns elementos dos assim chamados mitos primitivos, na sociedade moderna, desenvolveu-se um outro tipo de experiência que também recebe a designação de mito. Agora estamos falando do mito do super-herói, da estrela de cinema, do grande esportista, etc. Neste caso, o mito não é propriamente uma forma de conhecimento, pois não consiste numa interpretação da realidade; é, sobretudo, um tipo de experiência que, de alguma forma, vem preencher uma lacuna existente no homem.
Observe-se que, no caso dos mitos modernos, os ídolos despedem-se do caráter sagrado. Não são mais vistos como sendo da ordem do sobrenatural, mas percebidos numa perspectiva profana. Não são deuses nem espíritos que viveram em tempos remotos, mas “seres humanos de carne e osso” ou figuras oriundas da literatura, do cinema, das histórias em quadrinhos, etc., – da imaginação fabuladora, portanto, que têm a capacidade de realizar os mais íntimos desejos de seus cultuadores.
Movido por aspirações íntimas, premido por necessidades de todos os tipos, convocados pela propaganda a adquirir um determinado status, desejosos de firmar-se perante os outros, mas limitado economicamente, intelectualmente, em talento ou pelas próprias circunstâncias, o homem vê-se incapaz de atingir aquilo a que aspira ou o que dele se cobra. Temos aqui ingredientes básicos para a vivência mítica: alguém no caso, um processo de aproximação entre o homem e o ídolo, que pode ser uma pessoa (real) ou um herói nascido da imaginação fabuladora (imaginário). O ídolo realiza, de fato ou virtualmente, aquilo que ele, o homem, não consegue realizar.
A relação entre ambos – admirador e ídolo – pode dar-se das mais variadas forma: se, por exemplo, o admirador é uma pessoa desequilibrada, sua vivência mítica também o será; se for sadia, idem; o mesmo acontece no caso da alienação, do fanatismo, da ignorância, etc. Eis alguns exemplos: o assassino de John Lennon (desequilíbrio mental); a doentia imitação de seu ídolo da parte de um fanático admirador de um cantor de rock (alienação) ou a tranqüila fruição do talento de um grande compositor (equilíbrio). Por ser uma experiência vinculada ao subconsciente, a racionalização da vivência mítica normalmente leva a sua rejeição. A razão recusa-se a aceitar a presença da atividade fabuladora. O culto a um ídolo parece contrário à razão.
Também na mitologia primitiva existem ídolos, objeto de culto e veneração, no entanto, ali, seu culto insere-se no contexto de uma longa tradição, tendendo para a continuidade, ou seja, para seus adoradores, estes parecem eternos. Na sociedade atual, a tendência é inversa. Os ídolos são criados da noite para o dia. Parecem ser de barro: facilmente são substituídos por outros. Acrescente-se a isto o alto faturamento financeiro no caso da mitificação de uma banda de música ou de um jogador de futebol, só para citar alguns exemplos.
De um modo geral, os mitos da atualidade vêm preencher os vazios deixados pelo abandono de certos valores, como os éticos ou os da comunicação autêntica.


REFERÊNCIA
HRYNIEWICZ, Severo. Para filosofar hoje; Introdução e história da Filosofia. 5 ed. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2001.

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